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Cara amiga B..
Não tenho tido o prazer de inebriar-me daquela sensação de estado poético, quero dizer, o prazer de receber n'alma a inspiração duradoura e eficaz - tão logo inspiro, expiro devolvendo a poesia ao que me é exterior, digo, então, expelindo-a como se fosse lixo radioativo. Mas, então, não é a atividade vital da vida? Inspirar e expirar? Aqueles que se enebriam de poesia, do modo descrito acima, esses suspendem a respiração e capturam somente a inspiração - e não morrem, porque também aqui se comprova que é impossível morrer-se de tal suicídio; mas com arte muito digna eles consagram a poesia em palavras, então o que é o fôlego de um poeta...eu já não tenho esse fôlego - como também me falham os joelhos. Esse prelúdio serviu só para eu te dizer que não: não te trarei nenhum grande acontecimento, desses que você espera antes de dormir. Mas compartilho uma frustração: hoje, em algum ato desesperado de salvar-me a vida, busquei meu violino; brinquei um pouco, ri, fiz barrulhos estridentes e estranhos e pensei que talvez fosse bem fácil compor uma música dessas que tendem pro experimentalismo: mas logo achei estúpido tal pensamento, desprovido de qualquer conhecimento formal musical, desde o mais básico. Tentei relembrar algumas músicas, peguei a partitura, mas no final das contas suspirei: "Ah! Desafinados! Eu e ele!" - e talvez também aqui tenha me faltado o fôlego. Que maravilha! Que tipo de ser humano sou eu, sem fôlego e sem afinação!? O que me resta, senão respirar resignada, atestando minha falência inspiratória, senão desafinar sem protesto algum, que não fútil pirraça? Sem vocação para música ou para poesia, minha querida amiga B., eu despeço-me melancolicamente com a frustração de uma noite sem luar.
Eu era de um tempo do passado em que a primavera em tua idade era duradoura. E te conheci sob as promessas de paixões afoitas. Deitei palavras nos teus ouvidos e convidei-te para seres minha. Fora tudo em um instante – fugaz.
Logo se apressara o tempo, justificara-se efêmero e colocou rugas no teu rosto.
Agora mesmo te vejo passar na rua, depois de tantos anos, desfilando tua decadência e tristeza.
Penso em um modo de salvar-te, de oferecer-te o que outrora não funcionara; entretanto, o tom quixotesco dessas minhas juras entorpece-me numa apatia irredutível: não movo uma vontade para ir ao teu encontro, com aquelas lembranças que sustentariam nossa velhice em mútua cumplicidade.
É insuportavelmente agonizante ver-te caminhar indistinta entre a turba espessa que se atropela pelas nossas avenidas – modificadas pela construção civil, pela especulação imobiliária, pelo comércio, pelas necessidades: é a ratificação de que o tempo é outro e a constatação de que não estamos adequados aos projetos vindouros.
Eu havia te ofertado o meu amor e a minha paciência para uma vida inteira de complacência. E agora te contentas com algum rapaz franzino que te oferece o braço para atravessares a pista.
Minha distinta senhora, se eu aproximasse minhas promessas incrédulas de teus desejos cansados, que fim levaríamos? Teríamos um ao outro e um infinito pejo aplacado pela melancolia. Eu seria um juramento de infelicidade como meio de redimir-me das injúrias com as quais te maltratei; e tu, apaziguada pelos cabelos brancos, aceitarias, enfim,minha paz auto castigada.
Não, meu amor, o que restou de nós não foi sequer um respiro. Consumimos os delírios ardentes da paixão em mesquinharias e em ciúmes desmedidos. Porém, ao te ver, suspiro saudades secretas: acolhem-me sutis recordações do cheiro de teus cabelos soltos e lembro-me de como me estarrecia a tua liberdade de ir sem despedir-te - e de deixar apenas, nos sentidos de quem ficava sem adeus, um frescor que dissimulava sórdidos desejos. (...)
Agora te vejo sentada no banco da praça: tão contundente e amarga que nem sequer lembrar-se-á de quando andavas com aquele sorriso tímido, quase como se estivesse pedindo uma desculpa encabulada, ou agradecendo envergonhada alguma gentileza; aquele sorriso que me dava um frio-de-amor na barriga. (...mas entendo que envelheceste na clausura insalubre de alma violentada - tua alma que também é bagaço do fruto proibido ).