Eu era de um tempo do passado em que a primavera em tua idade era duradoura. E te conheci sob as promessas de paixões afoitas. Deitei palavras nos teus ouvidos e convidei-te para seres minha. Fora tudo em um instante – fugaz.
Logo se apressara o tempo, justificara-se efêmero e colocou rugas no teu rosto.
Agora mesmo te vejo passar na rua, depois de tantos anos, desfilando tua decadência e tristeza.
Penso em um modo de salvar-te, de oferecer-te o que outrora não funcionara; entretanto, o tom quixotesco dessas minhas juras entorpece-me numa apatia irredutível: não movo uma vontade para ir ao teu encontro, com aquelas lembranças que sustentariam nossa velhice em mútua cumplicidade.
É insuportavelmente agonizante ver-te caminhar indistinta entre a turba espessa que se atropela pelas nossas avenidas – modificadas pela construção civil, pela especulação imobiliária, pelo comércio, pelas necessidades: é a ratificação de que o tempo é outro e a constatação de que não estamos adequados aos projetos vindouros.
Eu havia te ofertado o meu amor e a minha paciência para uma vida inteira de complacência. E agora te contentas com algum rapaz franzino que te oferece o braço para atravessares a pista.
Minha distinta senhora, se eu aproximasse minhas promessas incrédulas de teus desejos cansados, que fim levaríamos? Teríamos um ao outro e um infinito pejo aplacado pela melancolia. Eu seria um juramento de infelicidade como meio de redimir-me das injúrias com as quais te maltratei; e tu, apaziguada pelos cabelos brancos, aceitarias, enfim,minha paz auto castigada.
Não, meu amor, o que restou de nós não foi sequer um respiro. Consumimos os delírios ardentes da paixão em mesquinharias e em ciúmes desmedidos. Porém, ao te ver, suspiro saudades secretas: acolhem-me sutis recordações do cheiro de teus cabelos soltos e lembro-me de como me estarrecia a tua liberdade de ir sem despedir-te - e de deixar apenas, nos sentidos de quem ficava sem adeus, um frescor que dissimulava sórdidos desejos.
(...)
Agora te vejo sentada no banco da praça: tão contundente e amarga que nem sequer lembrar-se-á de quando andavas com aquele sorriso tímido, quase como se estivesse pedindo uma desculpa encabulada, ou agradecendo envergonhada alguma gentileza; aquele sorriso que me dava um frio-de-amor na barriga.
(...mas entendo que envelheceste na clausura insalubre de alma violentada - tua alma que também é bagaço do fruto proibido ).
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário