quarta-feira, 3 de março de 2010

Perdoe-me, minha distinta senhora, se te entro assim em casa sem comunicar-te previamente a visita, como exigiriam as regras de nossa sociedade; entretanto, os motivos que me trouxeram aqui, haverà de convir comigo, dispensam qualquer etiqueta, já que, no curso da história, a gravidade de determinadas situações nunca apresentou-se de boa educação.
Sente-se, minha cansada senhora, para que não desabes por terra ante ao infortúnio que te será revelado, ou para que não se canses de pé a escutar um ansioso prelúdio à fatalidade - o qual, perdo-me ainda, não saberei dispensá-lo.
Mas não te impacientes, rogo-te, o retardamento da notícia em questão não poderá causar algum dano à tragédia já consumada; no máximo esse meu procedimento caprichoso atormenterá a tua angústia como aumenterá a tua ansiosidade, mas, insisto, está tranquila e deixa-me que te narre a história.
Eis, minha boa velha, que hoje pela manhã, como me é habitual fazer aos domingos, encontrava-me no parque de nossa cidade exercitando-me o físico e o intelecto, pois que caminhando e folheando o mais atentamente que podia um livro de botânica.
Em uma determinada curva de meu trajeto, deparei-me com sua frágil menina que andava sempre daquele seu mesmo jeito peculiar: de cabeça baixa para que o mundo não lhe entrasse violentamente pelos olhos, ou simplesmente para que a luz do dia, com a inclinação daquela hora da matina, não lhe fustigasse os seus muito azuis olhos.
De qualquer forma, posicionei-me à sua frente, de modo a lhe fazer sombra; ela, então, ergueu a vista e ao reconhecer-me sorriu. Entretando, soube de imediato, graças a minha perpiscaz sensibilidade em julgar fisionomias, que não se tratava de um sorriso sincero - havia em seu segredo alguma gravidade irremediável.
Indaguei-lhe sem demora se sentia-se bem de saúde e de espírito e, sem jamais esperar por aquela resposta, obtive a seguinte setença, carregada de uma verdade incontestável: "vou morrer". Atordoei-me e repliquei, deixando entreaver o debuxo de um sorriso nervoso, que era ainda muito nova para que a morte lhe estivesse rondando.
Então, a pequena retribuiu-me ainda o sorriso, mas um com ar de deboche, como se estivesse ele, o próprio sorriso, rindo-se da tolice de minhas palavras, da minha ignorância a cerca dos despropósitos da morte e da vida. Silenciei cabisbaixo.
Na verdade, naquele perplexo instante, tinha-me esquecido dos problemas de saúde que molestavam a criança e, ao recordar-me de seu quadro clínico, em um ímpeto de médico, quis levá-la até o meu consultório e salva-lá da anunciada morte.
Eu juro, minha amiga, que tentei de todos os modos persuadí-la a ir comigo, mas a pequena ofereceu-me ferrenha resistência e ao invés de acompanhar-me apenas convidou-me para sentarmo-nos, pois sentia tonturas e vertigens.
Consenti e não mais conversamos sobre a maldição auto sentenciada.
Sentamo-nos em um banco sob uma frondosa árvore que o meu livro de botânia classificou-a como uma mangifera indica, a nossa conhecida magueira. Ao nosso redor havia inúmeros desses frutos espalhados ao chão e eu, de repente, imaginei se não seria a queda de uma daquela fruta a causa da morte eminete; rimos ambos desse incidente que, no máximo, seria cômico.
E assim, minha cara senhora, trancorremos o dia inteiro, entre brincadeiras e amenidades, quando, finalmente, silenciamo-nos cansados e graves, quando, novamente, a lembrança da morte angustiou-me e não pude evitar de perguntar quanto tempo restava.
Senhora, eu que entendia de tomá-la por esposa venho aqui, por calamidade do destino, anunciar-te o desaparecimento da nossa estimada criança: foi então que a sua doce menina demonstrou-me mais um de seus sorrisos, e devo dizer-te o sorriso mais amavél de todos e, por paradoxal que seja, se tratava do derradeiro sorriso - naquele exato instante, aconteceu: talvez fosse a brisa mais fresca do dia, a menina pálida agradeceu, suspirou e depois morreu.

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