Tendo tanto amado e sofrido a coita, buscaram ensinar-me a fé no tempo e na distância; então fiz dos dias apenas sua sucessão, e afastei-me de passos-quilômetros e de pensamentos-metros.
No início, um exercício fatídico e desesperado; em seguida, o fluir do cumprimento de uma inevitável tarefa, longa e resignada - quase um trabalho mecânico, sem perguntar causa ou procurar consequência.
Assim transcorreu o espaço de pouco mais de um mês, que eu mesma, de repente, já poderia afirmar: "eis aqui, trata-se de um sonho longínquo"; porém, o despertar para essa atenção amargura-me na nostalgia surreal de fragmentos avulsos e fortuitos que me confundem e me desnorteiam - já não sei o que existiu, o que não existiu; já não sei se a tendência é melhorar ou agravar.
...e finalmente, mesmo como se todo o tempo da eternidade tivesse se colocado ao meu dispor para me socorrer com o esquecimento, esses momentos de atenção, lapsos de uma memória maldita, vêm e trazem-me de retorno ao dia imediatamente posterior ao de tua partida; e sinto novamente cada milésimo de dor com a mesma enfâse de meses atrás - como se hoje, amanhã e sempre : sem na distância te esquecer, amaldiçoada pela eterna saudade.
domingo, 4 de julho de 2010
quarta-feira, 3 de março de 2010
Perdoe-me, minha distinta senhora, se te entro assim em casa sem comunicar-te previamente a visita, como exigiriam as regras de nossa sociedade; entretanto, os motivos que me trouxeram aqui, haverà de convir comigo, dispensam qualquer etiqueta, já que, no curso da história, a gravidade de determinadas situações nunca apresentou-se de boa educação.
Sente-se, minha cansada senhora, para que não desabes por terra ante ao infortúnio que te será revelado, ou para que não se canses de pé a escutar um ansioso prelúdio à fatalidade - o qual, perdo-me ainda, não saberei dispensá-lo.
Mas não te impacientes, rogo-te, o retardamento da notícia em questão não poderá causar algum dano à tragédia já consumada; no máximo esse meu procedimento caprichoso atormenterá a tua angústia como aumenterá a tua ansiosidade, mas, insisto, está tranquila e deixa-me que te narre a história.
Eis, minha boa velha, que hoje pela manhã, como me é habitual fazer aos domingos, encontrava-me no parque de nossa cidade exercitando-me o físico e o intelecto, pois que caminhando e folheando o mais atentamente que podia um livro de botânica.
Em uma determinada curva de meu trajeto, deparei-me com sua frágil menina que andava sempre daquele seu mesmo jeito peculiar: de cabeça baixa para que o mundo não lhe entrasse violentamente pelos olhos, ou simplesmente para que a luz do dia, com a inclinação daquela hora da matina, não lhe fustigasse os seus muito azuis olhos.
De qualquer forma, posicionei-me à sua frente, de modo a lhe fazer sombra; ela, então, ergueu a vista e ao reconhecer-me sorriu. Entretando, soube de imediato, graças a minha perpiscaz sensibilidade em julgar fisionomias, que não se tratava de um sorriso sincero - havia em seu segredo alguma gravidade irremediável.
Indaguei-lhe sem demora se sentia-se bem de saúde e de espírito e, sem jamais esperar por aquela resposta, obtive a seguinte setença, carregada de uma verdade incontestável: "vou morrer". Atordoei-me e repliquei, deixando entreaver o debuxo de um sorriso nervoso, que era ainda muito nova para que a morte lhe estivesse rondando.
Então, a pequena retribuiu-me ainda o sorriso, mas um com ar de deboche, como se estivesse ele, o próprio sorriso, rindo-se da tolice de minhas palavras, da minha ignorância a cerca dos despropósitos da morte e da vida. Silenciei cabisbaixo.
Na verdade, naquele perplexo instante, tinha-me esquecido dos problemas de saúde que molestavam a criança e, ao recordar-me de seu quadro clínico, em um ímpeto de médico, quis levá-la até o meu consultório e salva-lá da anunciada morte.
Eu juro, minha amiga, que tentei de todos os modos persuadí-la a ir comigo, mas a pequena ofereceu-me ferrenha resistência e ao invés de acompanhar-me apenas convidou-me para sentarmo-nos, pois sentia tonturas e vertigens.
Consenti e não mais conversamos sobre a maldição auto sentenciada.
Sentamo-nos em um banco sob uma frondosa árvore que o meu livro de botânia classificou-a como uma mangifera indica, a nossa conhecida magueira. Ao nosso redor havia inúmeros desses frutos espalhados ao chão e eu, de repente, imaginei se não seria a queda de uma daquela fruta a causa da morte eminete; rimos ambos desse incidente que, no máximo, seria cômico.
E assim, minha cara senhora, trancorremos o dia inteiro, entre brincadeiras e amenidades, quando, finalmente, silenciamo-nos cansados e graves, quando, novamente, a lembrança da morte angustiou-me e não pude evitar de perguntar quanto tempo restava.
Senhora, eu que entendia de tomá-la por esposa venho aqui, por calamidade do destino, anunciar-te o desaparecimento da nossa estimada criança: foi então que a sua doce menina demonstrou-me mais um de seus sorrisos, e devo dizer-te o sorriso mais amavél de todos e, por paradoxal que seja, se tratava do derradeiro sorriso - naquele exato instante, aconteceu: talvez fosse a brisa mais fresca do dia, a menina pálida agradeceu, suspirou e depois morreu.
Sente-se, minha cansada senhora, para que não desabes por terra ante ao infortúnio que te será revelado, ou para que não se canses de pé a escutar um ansioso prelúdio à fatalidade - o qual, perdo-me ainda, não saberei dispensá-lo.
Mas não te impacientes, rogo-te, o retardamento da notícia em questão não poderá causar algum dano à tragédia já consumada; no máximo esse meu procedimento caprichoso atormenterá a tua angústia como aumenterá a tua ansiosidade, mas, insisto, está tranquila e deixa-me que te narre a história.
Eis, minha boa velha, que hoje pela manhã, como me é habitual fazer aos domingos, encontrava-me no parque de nossa cidade exercitando-me o físico e o intelecto, pois que caminhando e folheando o mais atentamente que podia um livro de botânica.
Em uma determinada curva de meu trajeto, deparei-me com sua frágil menina que andava sempre daquele seu mesmo jeito peculiar: de cabeça baixa para que o mundo não lhe entrasse violentamente pelos olhos, ou simplesmente para que a luz do dia, com a inclinação daquela hora da matina, não lhe fustigasse os seus muito azuis olhos.
De qualquer forma, posicionei-me à sua frente, de modo a lhe fazer sombra; ela, então, ergueu a vista e ao reconhecer-me sorriu. Entretando, soube de imediato, graças a minha perpiscaz sensibilidade em julgar fisionomias, que não se tratava de um sorriso sincero - havia em seu segredo alguma gravidade irremediável.
Indaguei-lhe sem demora se sentia-se bem de saúde e de espírito e, sem jamais esperar por aquela resposta, obtive a seguinte setença, carregada de uma verdade incontestável: "vou morrer". Atordoei-me e repliquei, deixando entreaver o debuxo de um sorriso nervoso, que era ainda muito nova para que a morte lhe estivesse rondando.
Então, a pequena retribuiu-me ainda o sorriso, mas um com ar de deboche, como se estivesse ele, o próprio sorriso, rindo-se da tolice de minhas palavras, da minha ignorância a cerca dos despropósitos da morte e da vida. Silenciei cabisbaixo.
Na verdade, naquele perplexo instante, tinha-me esquecido dos problemas de saúde que molestavam a criança e, ao recordar-me de seu quadro clínico, em um ímpeto de médico, quis levá-la até o meu consultório e salva-lá da anunciada morte.
Eu juro, minha amiga, que tentei de todos os modos persuadí-la a ir comigo, mas a pequena ofereceu-me ferrenha resistência e ao invés de acompanhar-me apenas convidou-me para sentarmo-nos, pois sentia tonturas e vertigens.
Consenti e não mais conversamos sobre a maldição auto sentenciada.
Sentamo-nos em um banco sob uma frondosa árvore que o meu livro de botânia classificou-a como uma mangifera indica, a nossa conhecida magueira. Ao nosso redor havia inúmeros desses frutos espalhados ao chão e eu, de repente, imaginei se não seria a queda de uma daquela fruta a causa da morte eminete; rimos ambos desse incidente que, no máximo, seria cômico.
E assim, minha cara senhora, trancorremos o dia inteiro, entre brincadeiras e amenidades, quando, finalmente, silenciamo-nos cansados e graves, quando, novamente, a lembrança da morte angustiou-me e não pude evitar de perguntar quanto tempo restava.
Senhora, eu que entendia de tomá-la por esposa venho aqui, por calamidade do destino, anunciar-te o desaparecimento da nossa estimada criança: foi então que a sua doce menina demonstrou-me mais um de seus sorrisos, e devo dizer-te o sorriso mais amavél de todos e, por paradoxal que seja, se tratava do derradeiro sorriso - naquele exato instante, aconteceu: talvez fosse a brisa mais fresca do dia, a menina pálida agradeceu, suspirou e depois morreu.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Cara amiga B..
Não tenho tido o prazer de inebriar-me daquela sensação de estado poético, quero dizer, o prazer de receber n'alma a inspiração duradoura e eficaz - tão logo inspiro, expiro devolvendo a poesia ao que me é exterior, digo, então, expelindo-a como se fosse lixo radioativo.
Mas, então, não é a atividade vital da vida? Inspirar e expirar? Aqueles que se enebriam de poesia, do modo descrito acima, esses suspendem a respiração e capturam somente a inspiração - e não morrem, porque também aqui se comprova que é impossível morrer-se de tal suicídio; mas com arte muito digna eles consagram a poesia em palavras, então o que é o fôlego de um poeta...eu já não tenho esse fôlego - como também me falham os joelhos.
Esse prelúdio serviu só para eu te dizer que não: não te trarei nenhum grande acontecimento, desses que você espera antes de dormir. Mas compartilho uma frustração: hoje, em algum ato desesperado de salvar-me a vida, busquei meu violino; brinquei um pouco, ri, fiz barrulhos estridentes e estranhos e pensei que talvez fosse bem fácil compor uma música dessas que tendem pro experimentalismo: mas logo achei estúpido tal pensamento, desprovido de qualquer conhecimento formal musical, desde o mais básico. Tentei relembrar algumas músicas, peguei a partitura, mas no final das contas suspirei: "Ah! Desafinados! Eu e ele!" - e talvez também aqui tenha me faltado o fôlego.
Que maravilha! Que tipo de ser humano sou eu, sem fôlego e sem afinação!? O que me resta, senão respirar resignada, atestando minha falência inspiratória, senão desafinar sem protesto algum, que não fútil pirraça?
Sem vocação para música ou para poesia, minha querida amiga B., eu despeço-me melancolicamente com a frustração de uma noite sem luar.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Eu era de um tempo do passado em que a primavera em tua idade era duradoura. E te conheci sob as promessas de paixões afoitas. Deitei palavras nos teus ouvidos e convidei-te para seres minha. Fora tudo em um instante – fugaz.
Logo se apressara o tempo, justificara-se efêmero e colocou rugas no teu rosto.
Agora mesmo te vejo passar na rua, depois de tantos anos, desfilando tua decadência e tristeza.
Penso em um modo de salvar-te, de oferecer-te o que outrora não funcionara; entretanto, o tom quixotesco dessas minhas juras entorpece-me numa apatia irredutível: não movo uma vontade para ir ao teu encontro, com aquelas lembranças que sustentariam nossa velhice em mútua cumplicidade.
É insuportavelmente agonizante ver-te caminhar indistinta entre a turba espessa que se atropela pelas nossas avenidas – modificadas pela construção civil, pela especulação imobiliária, pelo comércio, pelas necessidades: é a ratificação de que o tempo é outro e a constatação de que não estamos adequados aos projetos vindouros.
Eu havia te ofertado o meu amor e a minha paciência para uma vida inteira de complacência. E agora te contentas com algum rapaz franzino que te oferece o braço para atravessares a pista.
Minha distinta senhora, se eu aproximasse minhas promessas incrédulas de teus desejos cansados, que fim levaríamos? Teríamos um ao outro e um infinito pejo aplacado pela melancolia. Eu seria um juramento de infelicidade como meio de redimir-me das injúrias com as quais te maltratei; e tu, apaziguada pelos cabelos brancos, aceitarias, enfim,minha paz auto castigada.
Não, meu amor, o que restou de nós não foi sequer um respiro. Consumimos os delírios ardentes da paixão em mesquinharias e em ciúmes desmedidos. Porém, ao te ver, suspiro saudades secretas: acolhem-me sutis recordações do cheiro de teus cabelos soltos e lembro-me de como me estarrecia a tua liberdade de ir sem despedir-te - e de deixar apenas, nos sentidos de quem ficava sem adeus, um frescor que dissimulava sórdidos desejos.
(...)
Agora te vejo sentada no banco da praça: tão contundente e amarga que nem sequer lembrar-se-á de quando andavas com aquele sorriso tímido, quase como se estivesse pedindo uma desculpa encabulada, ou agradecendo envergonhada alguma gentileza; aquele sorriso que me dava um frio-de-amor na barriga.
(...mas entendo que envelheceste na clausura insalubre de alma violentada - tua alma que também é bagaço do fruto proibido ).
Logo se apressara o tempo, justificara-se efêmero e colocou rugas no teu rosto.
Agora mesmo te vejo passar na rua, depois de tantos anos, desfilando tua decadência e tristeza.
Penso em um modo de salvar-te, de oferecer-te o que outrora não funcionara; entretanto, o tom quixotesco dessas minhas juras entorpece-me numa apatia irredutível: não movo uma vontade para ir ao teu encontro, com aquelas lembranças que sustentariam nossa velhice em mútua cumplicidade.
É insuportavelmente agonizante ver-te caminhar indistinta entre a turba espessa que se atropela pelas nossas avenidas – modificadas pela construção civil, pela especulação imobiliária, pelo comércio, pelas necessidades: é a ratificação de que o tempo é outro e a constatação de que não estamos adequados aos projetos vindouros.
Eu havia te ofertado o meu amor e a minha paciência para uma vida inteira de complacência. E agora te contentas com algum rapaz franzino que te oferece o braço para atravessares a pista.
Minha distinta senhora, se eu aproximasse minhas promessas incrédulas de teus desejos cansados, que fim levaríamos? Teríamos um ao outro e um infinito pejo aplacado pela melancolia. Eu seria um juramento de infelicidade como meio de redimir-me das injúrias com as quais te maltratei; e tu, apaziguada pelos cabelos brancos, aceitarias, enfim,minha paz auto castigada.
Não, meu amor, o que restou de nós não foi sequer um respiro. Consumimos os delírios ardentes da paixão em mesquinharias e em ciúmes desmedidos. Porém, ao te ver, suspiro saudades secretas: acolhem-me sutis recordações do cheiro de teus cabelos soltos e lembro-me de como me estarrecia a tua liberdade de ir sem despedir-te - e de deixar apenas, nos sentidos de quem ficava sem adeus, um frescor que dissimulava sórdidos desejos.
(...)
Agora te vejo sentada no banco da praça: tão contundente e amarga que nem sequer lembrar-se-á de quando andavas com aquele sorriso tímido, quase como se estivesse pedindo uma desculpa encabulada, ou agradecendo envergonhada alguma gentileza; aquele sorriso que me dava um frio-de-amor na barriga.
(...mas entendo que envelheceste na clausura insalubre de alma violentada - tua alma que também é bagaço do fruto proibido ).
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